
Arquivo pessoal - desfile mangueira do amanhã 1994
Meu Olhar Sobre o Carnaval: Uma Mangueirense Entre Ancestralidade e Resistência
A maior festa ao céu aberto do mundo tem origem há mais de 3 mil anos, se trata de uma festa profana, a própria palavra carnaval vem do latim carnes levale traduzindo “retirar a carne”. As primeiras festas, que têm registro de 4000 a.C., se tratavam de festas agrárias e chegaram a celebrar os Deuses do vinho Dionísio na Grécia e Baco em Roma. Com a ascensão do cristianismo, a Igreja Católica adaptou essas celebrações pagãs, transformando-as em uma festa popular que antecede o período quaresmal.
No Brasil a festa chega com o portugueses após a invasão de terras brasileiras, por volta de 1641 o entrudo, uma brincadeira popular, era celebrado pelos escravizados que jogavam farinha e bolinhas de água de cheiro pelas ruas, uma celebração que expressava a alegria e a resistência de um povo oprimido. Porém, em 1841, foi proibido por ser muito violento, mas continuou até meados do século XX. Essa festa popular foi considerada desordeira, atrasada e ofensiva pela elite brasileira. O entrudo foi a principal festa carnavalesca do Rio de Janeiro na primeira metade do século XIX.
O samba, com suas raízes profundamente enraizadas na cultura africana, emergiu nos morros cariocas no início do século XX. Nascido dos batuques e cânticos trazidos pelos escravizados, o samba era uma forma de resistência e expressão cultural, celebrando suas tradições e ancestralidade. No entanto, essa manifestação artística era vista com desdém pela elite brasileira, que a associava à marginalidade e à criminalidade. O Código Penal de 1890, por exemplo, criminalizava o porte de instrumentos musicais, dificultando ainda mais a prática do samba. Apesar da repressão, o samba resistiu e se tornou um dos principais elementos do Carnaval, transformando-se em um símbolo da identidade brasileira e um patrimônio cultural imaterial da humanidade.
Em 1926, foi fundada a escola de samba “Deixa Falar” formada por passistas, músicos e compositores. Essa escola foi a que deu origem a “Estácio de Sá” logo depois a Mangueira surgiu. A Portela foi a primeira em 1923. O primeiro campeonato aconteceu em 1929 e o desfile aconteceu na Praça Onze em 1932 e 1933. O Globo, o maior jornal do Brasil, patrocinou o carnaval e criou uma lista de critérios para julgar os desfiles. Sambódromo surgiu somente em 1984, um projeto de Oscar Niemeyer encomendado pelo governador Leonel Brizola e pelo vice Darcy Ribeiro. É importante destacar que o samba, inicialmente marginalizado e criminalizado, enfrentou diversas dificuldades para se consolidar como expressão cultural legítima. Somente em 1940, durante o governo de Getúlio Vargas, o samba deixou de ser considerado um crime, permitindo que os sambistas pudessem expressar sua arte livremente.
O samba e o carnaval, como podemos ver no Brasil, estão ligados aos escravizados que foram traficados para o Brasil, com suas manifestações culturais e religiosas. Um grande exemplo é o toque do Orixá Oxossi na bateria da Mocidade, o toque é baseado no aguerê. Com toda essa ancestralidade vemos as escolas de samba convidado pessoas que nada tem a ver com a cultura para dentro dos barracões das escolas, pessoas essas que se recusam com o discurso de ser criada em berço evangélico e não aceita participar pelo enredo que exalta as religiões de matriz africana.
Como uma boa mangueirense e tendo a Tradição como a minha segunda escola da vida, sinto um profundo pesar ao ver esse território livre e negro, que sempre foi símbolo de resistência, ancestralidade e cultura, sofrer com o racismo que persiste até mesmo dentro das próprias escolas de samba. Essas instituições, que deveriam ser espaços de celebração e valorização das raízes africanas, refletem infelizmente as desigualdades e preconceitos estruturais de nossa sociedade. É doloroso perceber que, mesmo nesses ambientes onde a negritude deveria brilhar e ser exaltada, ainda encontramos atitudes que ferem a luta por respeito.
Texto: Ana Vitoria Gaspar da Silva
24/01/2025