
Foto: Arquivo pessoal
Bate-Bola: do Medo à Fascinação
A minha primeira relação com o bate-bola foi um misto de susto e fascínio. O barulho da bola batendo no chão me fazia tremer, as máscaras me davam um medo real — mas, olha… aquele cheiro específico das roupas e a explosão de cores sempre me deixaram com os olhos brilhando.
Na infância, vivi o combo completo da criação anos 90. Minha mãe, raizíssima, achou que seria uma boa ideia deixar um bate-bola entrar em casa. Resultado: me escondi debaixo da cama como se tivesse visto o próprio capeta. Quando criei coragem pra abrir o olho, lá estava ele, me encarando com a máscara. Um momento inesquecível — no pior sentido.
E como a vida de criança medrosa não é fácil, meu pai, também moldado nos moldes rústicos dos anos 90, me deixou do lado de fora do carro enquanto um grupo de bate-bolas se aproximava. Eu só queria sumir. Vale lembrar que eram todos meus coleguinhas de rua — mas vai explicar isso pra uma criança em pânico diante de uma máscara assustadora?
Tentei superar. Teve um dia que me emprestaram uma fantasia, e eu pensei: “é hoje que viro bate-bola e deixo o medo pra trás!”. Só que não. Continuei com medo, só que dessa vez vestida com um figurino completo e suando por dentro.
Anos depois, o medo deu lugar à admiração. Hoje eu entendo o bate-bola como parte fundamental da cultura do carnaval carioca, um grito colorido das periferias que transforma a rua em passarela. É resistência, é identidade, é arte feita com suor e muito amor.
Mas infelizmente, nem todo mundo enxerga isso. Existe um preconceito forte — e velado (ou nem tanto) — contra os grupos de bate-bola, principalmente por virem das favelas e periferias. A elite até paga caro pra ver desfile na Sapucaí, mas quando a arte invade a rua com brilho, batuque e máscara, torce o nariz.
Pra quem não é do Rio, talvez seja difícil entender a dimensão dessa beleza. E pra quem é, fica o desafio de olhar além do estigma. Bate-bola não é bagunça, não é ameaça, não é desordem. É cultura viva.
Então, se um dia você tiver a chance, troque uma ideia com alguém de um grupo. Escute suas histórias. E se não tiver, dá um pulo no SESC Madureira e veja a exposição maravilhosa do André Arruda. Tá tudo ali: história, força, cor, identidade.
Texto: Ana Vitoria Gaspar da Silva
Março / 2025