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Foto: Ana Vitoria Gaspar da Silva

Minha existência é meu posicionamento

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Não acho que preciso ou devo me posicionar politicamente o tempo todo, afinal, meu corpo fala por mim. Mas, às vezes, é importante se posicionar.

Tenho pensamentos alinhados à extrema esquerda. Acompanho políticos e pensadores desse campo e, ainda assim, sinto que muitos deles não conseguem dialogar com a grande massa, com a periferia. Embora eu acredite que alguns nomes estejam tentando mudar isso, ainda existe uma distância entre o discurso político e a realidade de quem vive na ponta.

Sou a favor da demarcação das terras indígenas, do direito ao voto feminino, e sou contra o racismo, a homofobia, a transfobia e a ideia de que bandido bom é bandido morto. Não sou a pessoa mais estudada do planeta, mas tenho o mínimo de consciência de classe para entender que não estamos todos do mesmo lado e que nem todo discurso de justiça é, de fato, justo.

Sou um corpo extremamente politizado. Uma mulher preta, completamente tatuada, que tem fé na ancestralidade afro-ameríndia. Eu JAMAIS vou compactuar com o extermínio do meu próprio povo, do povo que faz parte da minha história e da fé que eu cultuo.

Em 2018, prometi a mim mesma que não falaria nem discutiria política. Mas cá estou eu, em 2026.

Não estou aqui para abrir uma grande discussão, muito menos para convencer quem já tem opiniões formadas. Cada pessoa faz suas escolhas a partir daquilo em que acredita. Vivemos em uma democracia e temos o direito de pensar diferente.

Mas talvez seja justamente aí que mora o meu medo: até quando teremos esse direito?

Meu medo é perder a democracia. É ver direitos que foram conquistados com tanta luta serem ameaçados. É ver o meu povo ser colocado novamente na mira de discursos de ódio, da violência e do extermínio.

Porque, para mim, política nunca foi apenas sobre quem ocupa uma cadeira ou sobre quem ganha uma eleição.

Política também é sobre quem tem o direito de existir, de viver com dignidade e de continuar existindo sem precisar lutar todos os dias pela própria vida.

E eu não posso me calar diante disso.
 

Texto: Ana Vitoria Gaspar da Silva

06/10/2026

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