
Foto: Márcia Foletto/Agência O Globo
O massacre no Rio e o silêncio do Estado
Nessa última terça-feira, dia 28/10, um massacre se iniciou no Rio de Janeiro. A “cidade maravilhosa”, por um momento, perdeu esse título para se tornar palco do maior massacre já registrado em sua história.
A Prefeitura decretou estágio de alerta 2, que é estabelecido quando há risco de ocorrências de alto impacto na cidade, o que se confirmou pelas barricadas em ruas importantes e vias expressas.
Nos últimos anos, temos acompanhado o avanço da organização criminosa Comando Vermelho, que vem dominando comunidades do Rio de Janeiro em meio a confrontos violentos pela disputa de territórios. O grupo surgiu ainda na década de 1970, dentro do sistema prisional, e ao longo dos anos se estruturou em torno do tráfico de drogas, armas e da disputa por poder territorial. Pela lei, o Comando Vermelho é considerado uma organização criminosa, conforme a Lei nº 12.850/2013, que define esse tipo de associação.
Nos últimos tempos, alguns setores políticos e autoridades têm defendido que facções como o Comando Vermelho sejam classificadas como organizações terroristas, com base na Lei Antiterrorismo (Lei nº 13.260/2016).
O argumento é que suas ações provocam pânico generalizado, bloqueios de vias, ataques armados e ameaçam a ordem pública. No entanto, essa classificação é polêmica: especialistas alertam que usar o termo “terrorismo” de forma ampla pode militarizar ainda mais as ações policiais, endurecer o tratamento dado às favelas e criminalizar ainda mais a população negra e periférica, desviando o foco das verdadeiras causas da violência, como a desigualdade social, o racismo e a ausência do Estado.
Mais uma vez, vemos uma operação policial justificada como combate ao crime, mas a realidade mostra que o alvo principal é a população preta e periférica.
Já está claro que esse tipo de ação não enfraquece o crime organizado. Mesmo com a quantidade chocante de pessoas mortas, o Comando Vermelho segue atuando.
O atual governador do estado, Cláudio Castro, declarou que já sabia que haveria reação à operação realizada no Complexo da Penha e no Complexo do Alemão. Essa retaliação resultou em fechamentos de vias expressas e ruas importantes, afetando toda a população, com o adiantamento do horário de rush, motoristas de ônibus com medo de rodar e um clima generalizado de tensão. Ainda assim, o governador afirmou que a operação foi bem-sucedida.
Até o presente momento, são 130 mortos. São 130 famílias destruídas, que nada têm a ver com as escolhas de cada um. São 130 vítimas de um sistema que se retroalimenta, onde a violência estatal e a criminal caminham juntas.
Não se trata de defender ações criminosas, mas de reconhecer que essas operações não são eficazes: a polícia entra, mata, assusta, invade casas de moradores, sai e a organização criminosa permanece. Isso porque quem realmente comanda o tráfico não mora nas comunidades, mora na Zona Sul, em coberturas de luxo, lucrando com o tráfico e com a morte.
Além disso, os números mostram que as maiores apreensões de armamentos, especialmente de fuzis, ocorreram na Zona Sul, revelando uma contradição alarmante: é nessa região que se concentram os maiores arsenais, mas é nas favelas e periferias que o Estado escolhe atirar.
Hoje, 29/10, vemos as consequências trágicas: moradores retirando corpos de dentro da mata desde a madrugada, tarefa que deveria ser feita pelo Estado, o mesmo Estado que não está presente nas comunidades, a não ser pela força.
O Rio de Janeiro é uma cidade histórica, bela e potente, mas essa beleza se restringe à Zona Sul. Todas as outras áreas seguem abandonadas pelo poder público, esquecidas por quem deveria garantir vida, segurança e dignidade.
Texto: Ana Vitoria Gaspar da Silva
29/10/2025